“Crime e Castigo”

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Crime e Castigo

Rodion Raskolnikov, personagem principal de “Crime e Castigo” de Dostoyevsky, é um jovem ex-estudante de direito que planeja e assassina um agiota – odioso e que merecia morrer, racionaliza. Enquanto fugia da cena do crime acaba forçado a matar também uma inocente. Sua culpa nunca é descoberta e seu crime é considerado perfeito. Sua mente, entretanto, não o perdoa. E o livro, um clássico, gira em torno do conflito interno do personagem.

A história do meu crime começa com um artigo da revista Pais e Filhos. Publicado no início da década de 80 e que defendia os benefícios do judô para a concentração das crianças. Minha mãe, possivelmente já preocupada com o gene da distração que corre solto na família, logo me matriculou. Tudo correu bem, até surgir o basquete. 2ª, 4ª e 6ª das 8 às 9, aula de basquete. Das 10 às 11, aula de judô. No intervalo banho, quimono e lanche. Não me lembro exatamente de desgostar de judô. Mas lembro que enquanto eu me preparava, meus colegas do basquete continuavam jogando. E era o que eu queria fazer também, estava claro. Por meses pedi para sair do judô. As negativas eram enfáticas e vinham justificadas assim: “você não pode desistir de algo que escolheu começar!”. Como me faltava, naquela idade, capacidade de argumentação para retrucar: “com 4 anos de idade, não escolhi nada!”, usava os recursos disponíveis: chorava, esperneava, implorava, chorava de novo. Dia após dia. E nada. Depois de um bom tempo, concluí: só sairia do judô, faixa preta, 10º Dan!

Já conformado com meu destino, certo dia, depois de sair do vestiário, não resisti e fui jogar com a turma. De quimono e chinelo mesmo. Só 10 minutos, pensei. E, apesar de já praticar judô há um bom tempo, contrariando portanto a teoria da revista, me distraí. Quando dei por mim e olhei no enorme relógio da torre do Minas 1, já eram 10:40. Senti um frio na barriga, seguido de um aperto no peito. Nunca havia sentido aquilo. Anos mais tarde descobriria que isto tem nome: angustia. Sem saber o que fazer, fiz o que qualquer criança daquela idade faria na minha situação: continuei a jogar.

O que aconteceu depois é fácil deduzir. Passei a repetir consistentemente este ritual: saia da aula de basquete, tomava banho, vestia o quimono e o chinelo, ia para quadra jogar só um pouquinho…e perdia a hora, assassinando “sem querer” a aula de judô. Fiz isto por meses. Até o dia em que o Professor Mario Lúcio, da janela da secretaria, avistou um menino de quimono e chinelo, jogando basquete na quadra, no horário da sua aula. Como um criminoso que volta à cena do crime, minha insistência em vestir o quimono me traiu. Dirão os psicólogos de plantão que era um símbolo do meu impulso inconsciente de ser descoberto. Ou algo parecido com isto. Para mim, era um álibi. O quimono era a prova material de que estava ali porque perdi a hora. E sustentava a mentira que eu mesmo fingia acreditar: não fazia algo planejado.

Era 6ª feira e lembro do grito do professor até hoje. Além da bronca, levei um bilhete convocando meus pais para uma reunião. Quando perguntado, em casa, qual o motivo da convocação, respondi: “não faço a menor ideia”. E tive o pior final de semana da minha infância. Parecia um condenado à morte, em seus momentos finais. 2ª feira, quando chegamos ao clube para a minha “execução”, uma surpresa: as equipes do clube tinham viajado para um campeonato e não havia aula. Nenhum professor presente. Minha mãe, bravíssima com a viagem perdida, sentenciou: “avisa este professor que vim aqui hoje… pergunta o que ele quer e me fala, pois não quero voltar!”. Minha salvação. Na aula seguinte, com a minha melhor cara de arrependimento, informei ao professor o ocorrido, disse que tudo estava conversado em casa e nunca mais perderia uma aula. O que de fato aconteceu. Como sabem, sou faixa preta 10º Dan.

Por anos achei que, como Raskolnikov, tinha cometido o crime perfeito. E que escapara impune. Até recentemente. Contava o caso, em tom de deboche, para um amigo. Com a valorizada óbvia na “sorte” que me “salvou” e comparando com o filme “Match Point” do Woody Allen, quando ele sabiamente comentou: “e você ainda acha que não foi punido?”. Silêncio… Me sentindo um idiota, percebi meu erro crasso de avaliação. Claro que fui punido. Não só fui punido, como tive pena muito maior do que merecia, tivesse eu confessado logo quando descoberto. É como diz a música: “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”. Porque – psicopatas a parte – lá no fundo, bem no fundinho em alguns casos, por mais que você racionalize, a verdade aprisionada faz barulho. Barulho que atormenta e tira o sono. Em tempos de “embargos infringentes”, acreditar nisto é de certa forma reconfortante. Mas pode ser também apenas ingenuidade extrema, de quem até hoje, sente ainda uma pitada de remorso por ter matado aquelas aulas de judô.

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