“What happened there ?”

1836756_10205330299556624_5430783252582157162_oSer descoberto como brasileiro nos EUA, pós Copa do Mundo, significa ser obrigado a responder uma variação da pergunta “What happened down there ?”. Ela vem assim mesmo: sem rodeios, sem contexto, explicitamente subentendida. Como se, através do contraste, deixasse absolutamente claro que não existe dúvida quanto ao tema: futebol e a nossa derrota por 7×1.

Norte-americanos dão um risinho contido, ao ouvirem minha resposta padrão: “até hoje não consigo explicar, foi sofrido demais e fico de mal humor só de lembrar…” e mudam logo de assunto. Talvez por não ligarem tanto assim para futebol.

Entre os estrangeiros entretanto, maioria dos taxistas por aqui, não tem escapatória. O debate sobre o tema só termina no destino final da corrida. Em simplesmente todos os taxis que andei por aqui, fui obrigado a conversar sobre o assunto. Classifico as conversas em duas categorias macro: a psicanalítica, quando o taxista é do tipo que apenas quer falar. Precisa do seu ouvido, não necessariamente da sua atenção e não se importa com a sua opinião. E a jornalística ou policial, quando o taxista foca em fazer perguntas, agindo como um entrevistador, na melhor das hipóteses. Ou inquisidor, na pior.

Hoje me deparei com um “outlier”. Um taxista que, após uma versão mais breve do interrogatório tradicional, iniciou um emotivo depoimento sobre sua paixão – e de todos os seus conterrâneos em Bangladesh – pela seleção brasileira. Citou com detalhes todas as nossas derrotas em fases eliminatórias desde 1950. Doídas, segundo ele, mas toleradas. E culminou com a declaração, chorando, de que não sabe mais se continuará a colocar a bandeira brasileira na janela.

Confesso que comecei a corrida no modo “ai que saco, lá vem este papo de novo”. Rapidamente migrei para uma posição mais neutra, ligeiramente defensiva, tipo “Isto nunca nos aconteceu antes. E foi muito ruim para a gente também…”. Cheguei ao destino final carregando nas costas o peso do sofrimento de quase 160 milhões de cidadãos de Bangladesh. Pedindo sinceras desculpas e prometendo que “em nome de todos os brasileiros garanto que isto não se repetirá. Mudamos o técnico, vamos treinar dobrado, temos novos talentos surgindo…Daremos tudo de si na próxima Copa !”.

No quarto do hotel, percebendo quão pesado é este fardo, tomei uma sábia decisão. Pelos próximos 20 anos, aproveitando minhas características físicas, passarei por alemão enquanto estiver nos EUA.

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Um comentário em ““What happened there ?”

  1. Acredito que não será difícil você se passar por alemão, e sim encontrar com outros por lá, daí começarem a falar mal do Brasil, ai vai ser dose kkkkk

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