Silk Road

Imagine um cidadão de classe média, família bacana. Escoteiro durante a infância, inteligente e boa praça. Curso superior, mestrado em uma boa universidade e autor de artigos acadêmicos sobre energia solar. Politicamente engajado e liberal, ao final do seu mestrado escreveu sobre uma possível mudança de rumos profissionais em sua página no Linkedin “Meus objetivos mudaram…Estou criando uma simulação economica que possibilite as pessoas a experiência pessoal de viver em mundo sem o uso sistematizado da força.”
A tal simulação deu origem a nada menos que o Silk Road, o mais famoso “marketplace” online de drogas mundial. Uma espécie de Amazon do submundo da Internet, acessível apenas via Tor, e transacionando todo tipo de mercadoria ilegal na nova, e anônima, moeda criptográfica Bitcoin. Entre 2011 e 2013, Silk Road se tornou um fenômeno mundial, com receitas anuais estimadas entre U$ 30 e U$ 40 milhões. Se o Uber, a maior empresa de taxis mundial, não possui um único carro. O Facebook, uma das maiores empresas de mídia, não cria conteúdo. O gigante do varejo online chines, Alibaba, não possui estoque. E o Airbnb, o maior provedor de acomodações do mundo não possui um único imóvel, parece natural esperar que o novo “Pablo Escobar” digital, nunca tenha plantado um pé de coca.

Seu criador e fundador, conhecido no site como “Dread Pirate Roberts” – famoso personagem do filme “sessão da tarde”, “A princesa prometida” – coletava comissões em Bitcoins em todas as transações, ao mesmo tempo que exercia uma liderança ideológica e filosófica sobre a comunidade de vendedores e compradores. Era considerado a reencarnação de Che Guevara pelos seus seguidores.

Com quase um ano de operação, um novo usuário – Nob – se cadastra no site, se apresentando como representante de traficantes de drogas da America Latina. Na verdade, um agente especial do DEA, atuando infiltrado, buscando informações para desmantelar a operação. Em pouco tempo, Nob e Dread Pirate Roberts se tornam amigos virtuais. A ponto de, ao ver seu empreendimento ameaçado, DPR, como todo bom revolucionário, abandona seus ideais e contrata Nob para assassinar quem o ameaçava. Pagamento em Bitcoins.

Paralelamente, um pequeno núcleo policial do FBI, especializado em crimes digitais, se dedicava a estudar a rede Tor e as transações em BitCoins, tentando entender melhor as bases tecnológicas deste novo empreendimento criminoso.

A operação de prisão de Ross Ulbricht em uma bibiloteca em San Franciso, em Outubro de 2013, foi digna de cinema. Com a equipe de Crimes Digitais do FBI se antecipando aos policiais destacados para a emboscada, para terem certeza de que conseguiriam capturá-lo com o notebook ligado.

Comparar a história do Silk Road com a série “Breaking Bad” é inevitável. Coincidentemente Ross foi preso um dia após o final da série de TV, e seu notebook, no momento da captura, baixava o episódio final via BitTorrent. Adicionando pirataria a lista de “crimes digitais” por ele cometidos.

Como na série, em que uma simples dedicatória em um livro permite ligar Heinseberg ao Mr. White, Ross foi definitvamente ligado ao seu pseudônimo “Dread Pirate Roberts” por uma pergunta técnica feita no site Stack Overflow, no início da sua empreitada. E que, por descuido, foi feita usando seu verdadeiro nome.
A vida real, neste caso, supera a arte. O agente DEA, infiltrado no site como Nob, foi preso em seguida, acusado de extorsão e roubo de milhões em Bitcoins de DPR. Como se descobríssemos ao final da série que o “Hank”, também era um vilão.
Durante seu julgamento, Ross escreveu uma carta à juiza do seu caso. Nela, ele reconhece que “Silk Road foi uma ingênua e onerosa ideia, da qual me arrependo profundamente. Entendo que a prisão perpétua é semelhante a pena de morte. As duas te condenam a morrer na prisão. Na perpétua, entretanto, a sentença demora mais… Tive minha juventude, e sei que não terei a meia idade. Peço que por favor me conceda a velhice. Deixe uma pequena luz no fim do túnel, um motivo para manter a saúde, uma desculpa para sonhar com dias melhores e uma chance de redenção em liberdade, antes que me encontre com meu criador.”
Após o julgamento, que contou com depoimentos de pais que perderam filhos por overdose no uso de drogas compradas via Silk Road, a juíza dirigiu-se a ele, dizendo: “Existe um lado bom em você. E um lado mau. O que você fez com o Silk Road foi altamente destrutivo. Cuidadosamente planejado como o trabalho de uma vida. Você queria que fosse seu legado, e será.”.
Sua condenação a prisão perpétua saiu hoje.Uma boa história para o cinema.

      

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